Educação pré-escolar e Inteligência Artificial: entre a inovação, a ética e o desenvolvimento da criança

Educação pré-escolar e Inteligência Artificial: entre a inovação, a ética e o desenvolvimento da criança

A digitalização e a Inteligência Artificial estão a entrar progressivamente nos sistemas educativos, incluindo na educação pré-escolar. Esta realidade exige uma reflexão serena, informada e pedagogicamente responsável. Não se trata de introduzir tecnologia porque ela existe, nem de substituir experiências fundamentais da infância por dispositivos digitais. Trata-se, antes, de compreender de que forma o digital pode apoiar a qualidade educativa, a inclusão, a comunicação com as famílias, a documentação pedagógica e o desenvolvimento de competências essenciais, sem comprometer o brincar, a relação humana e o desenvolvimento integral da criança.

O relatório europeu Positive impact, opportunities and challenges of digitalisation in ECEC, elaborado no âmbito do Grupo de Trabalho Europeu sobre Educação e Cuidados na Primeira Infância, sublinha precisamente esta ideia: a digitalização na educação de infância deve ser intencional, ética, inclusiva e adequada à idade das crianças. A tecnologia deve servir a pedagogia, e não o contrário (European Commission, Directorate-General for Education, Youth, Sport and Culture, 2025).

Digitalização não é apenas tempo de ecrã

Uma das mensagens mais importantes do relatório é a necessidade de distinguir digitalização de simples utilização de ecrãs. Na educação pré-escolar, o digital pode estar presente de muitas formas: na comunicação com as famílias, na documentação das aprendizagens, na gestão de dados, na monitorização da qualidade, na formação dos profissionais, no desenvolvimento do pensamento lógico e computacional e na promoção da literacia digital.

Por isso, uma boa estratégia digital para a educação de infância não começa pela pergunta “que equipamentos temos?”, mas sim por questões mais relevantes: que finalidade pedagógica está em causa? Que benefício traz para a criança? É adequado à idade e ao desenvolvimento? Protege os dados e a privacidade? Reforça a inclusão? Promove a participação das famílias? Reduz ou aumenta a carga administrativa dos profissionais?

Esta abordagem é particularmente importante no contexto da Inteligência Artificial. A IA pode apoiar a criação de recursos, a organização do trabalho dos profissionais, a diferenciação de materiais ou a análise de informação. Contudo, a sua utilização exige critérios claros, supervisão humana, transparência, proteção de dados e consciência dos riscos associados à automatização, à privacidade e à eventual influência de interesses comerciais.

Boas práticas identificadas

O relatório apresenta exemplos concretos de práticas relevantes em vários países europeus, conforme apresentado na tabela seguinte:
 
Tabela 1 - Boas práticas sobre IA na Educação Pré-escolar.
Boa prática País/Projeto Pequeno resumo Valor pedagógico
Atividades “unplugged” de pensamento computacional Eslovénia – Kindergarten Koper Crianças de 2 a 5 anos realizam atividades sem ecrãs: percursos com obstáculos, sequências com blocos, grelhas com setas, labirintos, ordenação de histórias e padrões. Desenvolve orientação espacial, sequenciação, pensamento lógico, resolução de problemas e noções básicas de algoritmo sem exposição direta a ecrãs.
Teatro sobre proteção de dados pessoais Eslovénia – Kindergarten Koper Uma peça de teatro mostra uma personagem que partilha a morada com alguém desconhecido na Internet, revelando depois o risco dessa exposição. Introduz segurança digital e proteção de dados de forma narrativa, concreta e compreensível para crianças pequenas.
GREELCO – comunidade online de aprendizagem profissional Erasmus+ Plataforma que liga profissionais de educação de infância de vários países, com visitas de estudo virtuais, vídeos de práticas pedagógicas, reflexão profissional e partilha de experiências. Mostra como o digital pode apoiar desenvolvimento profissional, aprendizagem entre pares e internacionalização sem estar centrado no uso direto da tecnologia pelas crianças.
SELFIEforTeachers for ECEC – uso crítico e reflexivo Kindergarten Jelka, Eslovénia Educadores analisaram criticamente a ferramenta, defendendo que deve ser adaptada ao contexto pré-escolar e usada para capacitar, não para classificar ou hierarquizar docentes. Boa prática de avaliação reflexiva das competências digitais dos profissionais, com atenção à especificidade da educação de infância.
Currículo de formação para profissionais sobre media digitais Baixa Saxónia, Alemanha Programa de desenvolvimento profissional com formação de base, transferência para a prática, proteção de dados, direitos das crianças, cooperação com famílias e construção de um conceito de media por instituição. Valoriza uma abordagem institucional, contextualizada e não prescritiva, ajudando cada jardim de infância a definir uma posição pedagógica própria.
Materiais “Play and Discoveries” e “Experience Spaces” Lituânia Conjuntos metodológicos com propostas práticas, recursos digitais via QR codes, atividades STEAM, literacia digital, criatividade e aprendizagem experiencial. Apoiam os educadores com exemplos concretos, mantendo uma lógica lúdica, interdisciplinar e adequada à idade.
Atividade “Animated Drawings” Lituânia As crianças desenham em papel e, com apoio do educador, usam uma aplicação de realidade aumentada para animar o desenho. Liga expressão artística tradicional e tecnologia, promovendo criatividade, curiosidade e uso supervisionado e significativo do digital.
Atividade “Where Does Honey Come From?” Lituânia As crianças exploram a origem do mel através de imagens, vídeos, contacto com apicultores, provas, desenho, modelação e discussão. Exemplo de integração equilibrada entre recursos digitais, exploração direta, ciência, linguagem, natureza e aprendizagem experiencial.
 

Cuidados essenciais para as escolas

O primeiro cuidado é preservar a centralidade do brincar, da relação, da exploração sensorial e da interação humana. Na educação pré-escolar, a experiência concreta, corporal, social e afetiva é insubstituível. A tecnologia deve complementar, nunca substituir, estas dimensões. 

O segundo cuidado é respeitar a idade e o desenvolvimento da criança. Para crianças mais pequenas, devem ser privilegiadas atividades “unplugged”, isto é, atividades sem ecrãs que desenvolvam competências fundamentais como sequenciação, orientação espacial, pensamento lógico, linguagem, cooperação e resolução de problemas.

O terceiro cuidado é garantir a proteção de dados. Qualquer utilização de plataformas, aplicações ou ferramentas de IA deve respeitar a privacidade, a segurança e os direitos das crianças. As escolas devem evitar práticas informais ou pouco conscientes de recolha, partilha ou armazenamento de dados, especialmente quando envolvem imagens, voz, produções das crianças ou informação familiar.

O quarto cuidado é envolver as famílias. Muitas famílias associam digitalização apenas a ecrãs e riscos. Outras usam intensamente tecnologia em casa sem consciência plena dos seus efeitos. A escola pode ter aqui um papel pedagógico relevante, promovendo uma compreensão equilibrada: nem rejeição acrítica, nem adesão ingénua.

O quinto cuidado é formar os profissionais. A integração significativa do digital depende menos dos equipamentos disponíveis e mais da competência pedagógica, ética e crítica dos educadores. A formação deve ajudar os profissionais a decidir quando usar, quando não usar, com que finalidade, com que limites e com que salvaguardas.

Conclusão

A digitalização e a Inteligência Artificial colocam novas possibilidades à educação pré-escolar, mas também novas responsabilidades. O desafio não é “digitalizar” a infância, nem antecipar modelos escolares formais. O desafio é preparar as crianças para um mundo digital preservando aquilo que é essencial na educação de infância: o brincar, a relação, a curiosidade, a linguagem, o corpo, a imaginação, a cooperação e o bem-estar. As escolas e jardins de infância devem, por isso, adotar uma abordagem prudente e estratégica. O digital deve ser usado quando acrescenta valor educativo claro, quando respeita o desenvolvimento da criança, quando reforça a inclusão e quando é acompanhado por profissionais preparados. A Inteligência Artificial poderá ter lugar neste percurso, mas sempre como ferramenta subordinada à intencionalidade pedagógica, à ética e aos direitos da criança.

Referência
European Commission, Directorate-General for Education, Youth, Sport and Culture. (2025). European Early Childhood Education and Care (ECEC) Working Group: Peer Learning Activity – Positive impact, opportunities and challenges of digitalisation in ECEC. Retrieved from https://school-education.ec.europa.eu/system/files/2025-12/ECEC_WG_2025_Digitalisation_in_ECEC.pdf.